REPORTAGENS











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"É um fardo administrar o legado da Legião"

Dez anos após a morte de Renato Russo, o guitarrista da Legião Urbana se lança em carreira solo e fala da briga judicial com a família do líder da banda.

Revista IstoÉ - 13/02/2006
Carla Felícia

        Aos poucos Dado Villa-Lobos vai esvaziando o casarão na Gávea que serviu como local de trabalho por oito anos. Restam alguns móveis e quadros, além de discos de ouro e platina recebidos pela Legião Urbana em 15 anos de estrada. Aos 40 anos, o guitarrista de uma das bandas mais populares de todos os tempos, que marcou a geração de trintões, quer mudar de ares. Vive um momento de renovação e retomada. Às vésperas de completar dez anos da morte do líder Renato Russo – e do conseqüente fim da Legião –, Dado assume o microfone pela primeira vez para se aventurar na carreira solo. Acaba de lançar o CD Jardim de Cactus, dentro da série MTV Apresenta, que também inclui um DVD. Ambos foram gravados ao vivo em um show no ano passado no Rio, com gente como Paula Toller e Herbert Vianna dividindo com ele os vocais. “Não dizem que a vida começa aos 40? Então, acredito nisso”, diz o músico, casado há 20 anos com a designer Fernanda, 46, pai de Nicolau, 17, e Miranda, 16.

Que dificuldades encontrou no caminho solo?
Foram vários percalços e desafios. Primeiro, cantar. Depois, decorar as letras. Demorei uns dois meses para decorar as músicas do disco. Mas a maior dificuldade hoje em dia não é em relação à música, à banda, ao artista. É o que vem depois: promover, vender, voltar ao mercado. Ainda tenho certa credibilidade nesse meio. Talvez fique mais fácil nesse sentido, pois não estou começando do zero. Mas a questão é começar sozinho, não ter mais um grupo ao meu lado, trocando idéias.

Sente falta disso?
É uma experiência nova estar lá na frente cantando uma canção inteira. Quando você está só tocando, nem percebe o resto. Eu não decorava as letras quilométricas da Legião. Agora estou decorando. Tenho colocado músicas da Legião nos meus shows para entreter o público. Com um disco de músicas virgens, você não vai entreter 100% o povo que está esperando outras coisas de você. A Legião deixou um trauma por ter acabado tão trágica e subitamente. As pessoas esperam e pedem que eu cante as músicas da banda.

Fica incomodado?
Não. Aquelas músicas ainda têm uma relevância e uma importância muito grande dentro do universo musical brasileiro. Acho natural que isso aconteça. Monto um espetáculo em que as músicas do disco novo se encaixam com algumas da Legião. É bom cantá-las. Faz parte do meu universo, da minha vida, da minha obra. São músicas que eu fiz e que estão aí para serem executadas.

Sentiu-se pressionado pela força da Legião?
Sou um legionário, não tem jeito. A Legião é a minha vida, não uma sombra que me assombra, pelo contrário. É um colchão onde estou sentado muito confortavelmente, que me ampara e me dá sustentação. E que me deixa livre para fazer músicas que tenham a ver comigo, que traduzam o que sou.

Em algum momento sentiu seu talento ofuscado pelo do Renato?
De jeito nenhum. Cada um ali dependia do outro. É óbvio que o Renato tinha aquela personalidade forte, carismática, mítica, sabia se colocar muito bem em público. Ele era a peça motriz, funcionava como propagadora de todas as idéias. Mas o que existia ali era a Legião. E a Legião era Renato, eu e Bonfá.

Como recebe as críticas ao seu novo trabalho?
Venho de uma banda que era malhada sistematicamente pela crítica. Adquiri o hábito de aceitá-las. Os críticos musicais em geral são bem parciais, às vezes até covardes, quando se referem ao trabalho dos artistas. Os discos são avaliados de forma destrutiva. Não dou muita importância.

Como explica o sucesso da Legião Urbana ainda hoje?
Quando a gente gravava um disco, pensava: ‘Vamos fazer um disco que fique para sempre no catálogo da gravadora, vendendo para o resto da vida’. Não consigo identificar a fórmula, o porquê desse sucesso, mas foi feito com esse intuito.

Se Renato estivesse vivo, a Legião estaria tocando junto ou vocês já estariam em projetos solos?
Provavelmente a Legião estaria aqui. Mas talvez num ritmo não tão acelerado, mais compassado. O Renato tinha vários planos, e a gente sempre incentivou muito os planos dele – como o disco que ele cantou em inglês e o outro em italiano, a coisa mais subversiva que já vi um artista dito rebelde fazer, uma loucura. Ele sabia muito bem fazer essas coisas.

Pensaram em continuar sem ele?
Nunca. A Legião era o trio. A gente assinava contrato com a gravadora em separado e tinha uma cláusula que dizia que somente quando os três se juntassem é que se caracterizava a Legião.

É difícil administrar o legado da Legião Urbana?
É um fardo administrar esse legado, em função da questão judicial. A família do Renato assumiu uma postura diferente da filosofia e do comportamento que a Legião Urbana adotava. Sempre buscamos nos preservar ao máximo, preservar o repertório. Para isso, tínhamos a nossa editora, a Corações Perfeitos. A família tirou o Renato dessa sociedade, fundou outra editora e levou parte da obra. Essa divisão, a forma como eles vêem e administram esse legado é uma pedra que tem que ser tirada do caminho.

O que pretendem fazer?
Ainda há uma discussão em termos jurídicos sobre como isso deve ser administrado. A minha posição e a do Bonfá continua sendo a de nos preservar e não autorizar nada em relação ao repertório da Legião, do qual somos co-autores. Não queremos canibalizar e transformar aqueles discos em 50 compilações. A família vê essa questão de maneira diferente, mas o legado artístico é meu e do Bonfá. Se alguém tem ingerência artística sobre esse repertório, do que será feito em relação à Legião Urbana, somos nós dois. Nós temos o poder de decisão.

Que relacionamento tinham com a família antes da morte do Renato?
Eles moravam em Brasília, a gente não se via muito. Nem o Renato os via muito. Não havia proximidade. Hoje, menos ainda. Não conversamos cara a cara. Existe uma barreira estranha e intransponível, a dos advogados. Eles indicaram uma pessoa para substituir artisticamente o Renato, que é o senhor Marcelo Fróes, sobre cuja idoneidade e capacidade de exercer tal função eu tenho minhas dúvidas.

Já superou a perda do Renato ou escutar a voz dele ainda dói?
Foi duro perder um grande amigo, um parceiro, um companheiro, quase o meu guia, a pessoa que foi determinante para mim, para o Bonfá, para nossa formação. Um pedaço de você vai embora. Mexe com a emoção relembrar, reviver tudo de novo, ver como o Renato era especial. Mas não é dolorido. Quando ouço Legião no rádio, aumento o volume. Não existe mais dor. Só ficaram boas lembranças.

Entrou em crise com os 40?
Quando fiz 29, o Renato falou: “É o retorno de Saturno. Você vai ver o que vai acontecer” (é quando Saturno completa seu ciclo e deflagra uma fase de mudanças e transformações). Aquelas coisas de astrologia que ele tinha. Tento buscar a felicidade com o tempo. Me sinto bem. Hoje em dia, as pessoas acham que sou irmão dos meus filhos, tenho cara de garoto. Fico envaidecido. Fazer 40 anos foi ótimo.

É vaidoso?
Não vou morrer de vaidade, mas me comporto bem. Como descobri que era diabético há quase 30 anos (mostra uma tatuagem no braço direito onde se lê Eduardo Villa-Lobos, diabético, A positivo), entrei numa certa disciplina em relação a horários, alimentação e prática de esportes. Jogo futebol, tênis, ando de bicicleta, a cavalo, velejo. Sou viciado em endorfina.

A histeria dos fãs é a mesma?
Não sei... (envergonhado). Na época da Legião, rolava uma certa histeria – constrangedora às vezes. Mas nunca tive esse ímpeto de sair para comer geral, passar o rodo. Lembro que, no começo, em Brasília, um cara me disse: “Entrou na Legião, vai comer muita mulher”. Respondi: “Por quê? Qual a diferença de estar ou não estar na banda para isso acontecer?” Nunca relacionei uma coisa com a outra.

Não é mais fácil seduzir as mulheres no palco, de guitarra na mão?
Mas nunca tirei vantagem disso. Sempre fugi. Estou casado há 20 anos, me casei com 19. Preservei isso durante muito tempo e continuo preservando com unhas e dentes.

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